3 de fevereiro de 2012

A Busca pelo Sorriso



Publicação Revista Sentidos – ano 11 nº 68
Por Eli Nogueira de Almeida “Cotidiano”
  
NA BUSCA PELO SORRISO, ATÉ OS PERNILONGOS AJUDARAM
“O Lú esteve internado naquele hospital infantil por diversas vezes. Praticamente passou por lá o seu primeiro ano de vida, em função de sua imunidade muito baixa. Algumas vezes chegou a ter febre alta no caminho de volta pra casa e teve que retornar ao leito hospitalar para restabelecer o equilíbrio de sua defesa.
            Daquela vez, o médico nos comunicou que cumprira todo o procedimento clínico e que ele poderia ter alta, mas sua recuperação dependeria muito do estímulo familiar em animá-lo, pois sua prostração era acentuada.
            De fato, seu olhar parecia perdido no espaço, sem qualquer foco ou brilho. Era como se estivesse entregue à sorte do tempo, sem manifestação de qualquer interesse, uma tristeza que nos deixava atônitos, aflitos e perplexos. Seus olhinhos pareciam duas jabuticabinhas sem brilho.
            Foi com essa condição que o levamos para casa, naquele princípio de noite. Seu berço, ao lado de nossa cama, o aguardava, enfeitado com balões de todas as cores, para uma alegre recepção. Tanto os balões como os gestos, palavras e outras atitudes engraçadas não lograram em extrair dele nenhum sinal de ânimo, nem mesmo um pequeno sorriso. Continuava com o olhar um pouco distante e desinteressado.
            Aliás, essa preocupante situação de pouca imunidade e de reiteradas infecções iria persistir por um longo tempo, o que nos levou a aceitar um tratamento absolutamente novo, incerto e muito caro. Foi uma decisão muito difícil, da qual falaremos mais adiante. Na verdade foi a única alternativa que apareceu.
            Voltando ao quarto, após algum tempo de insistente e inócua tentativa de fazê-lo dar um sorrisinho, pedi que todos se retirassem, pois seria melhor fechar o quarto para que ele tentasse dormir e arregimentasse forças. Antes de apagar a luz, percebi que alguns pernilongos sobrevoavam ameaçadoramente o berço e se preparavam para sugar o sangue daquela pequena e inerte criatura. Imediatamente pus-me a persegui-los com as mãos, provocando ruídos de palmas, tudo em vão, pois tais insetos são muito rápidos.
            Estava exatamente nessa batalha braçal com tais insetos, quando ouvi uma doce gargalhada. Virei-me para o berço e vi o Lú dando risadinhas da minha incompetência em atingir os insetos, com tapas no ar.
            Chamei todos os demais para produzir uma batalha global, com gestos no ar, pois acabava de descobrir uma milagrosa forma de animar aquela indefesa criança.
            Esse fato consolidou em mim a premissa de que nem sempre sabemos achar a solução correta, embora ela esteja tão perto e seja muito simples. A gente tem sempre que prestar muita atenção e esgotar alternativas, assim como ter a absoluta fé de que o propósito será alcançado.

(Eli Nogueira de Almeida é pai do Lú, que tem síndrome de Down.)

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