31 de maio de 2016

A FISIOTERAPIA QUE LIBERTA

EM CIMA DO CAVALO, PESSOAS com NECESSIDADES ESPECIAIS GANHAM AUTO-CONFIANÇA E SAÚDE


"Há cinco meses Manu pratica equoterapia no Haras da Brisa. Segundo sua mãe, Lauristela Guimarães, ela havia praticado essa modalidade de fisioterapia quando era menor, há cerca de dez anos, mas sempre foi muito difícil encontrar lugares em Cuiabá: “Eu descobri o haras aqui e foi o melhor presente que ela poderia ter recebido”, afirma.
A garota obteve melhoras no equilíbrio, na auto-estima e adquiriu vontade própria: “Teve um dia que ela chegou aqui, subiu no cavalo sozinha e surpreendeu a todos. Era meio dia, aquele sol de rachar, e no meio do caminho eu achei que ela ia desistir, mas ela foi até o fim”, conta Lauristela, orgulhosa. Hoje, já familiar com os cavalos, Manu cavalga mais de uma hora sem parar e, se cair, levanta o mais rápido possível para que sua mãe não perceba, e continua seu caminho.
A equoterapia é uma técnica extremamente antiga. Apesar de ainda não ainda não ter este nome, e de os estudos não terem descoberto todas as suas funções na época, ela existe desde a Grécia Antiga. “Hipócrates receitava para os gregos que andassem a cavalo para melhorar a coordenação”, conta Edson Andrade, dono o Haras da Brisa, onde Manu pratica a terapia.
Sua filha, Gabrielle Andrade, explica ainda que a prática é eficiente porque ao andar a cavalo, a pessoa tem que ajustar seus músculos para que se movimentem simultaneamente aos do animal. Desta forma, o passo do cavalo faz com que o paciente movimente a pélvis, além de fazer movimentos com o quadril na horizontal e na vertical. “A cada 30 minutos, a pessoa repete esses movimentos 1800 vezes”, explica a Gabrielle, que também é bióloga. “Quando um paciente especial ficaria parado movimentando 1800 vezes um músculo, se não fosse em cima de um cavalo?”, indaga.
Com esta repetição de movimentos, a fisioterapia em cima do cavalo traz resultados mais rápidos e, acima de tudo, de forma divertida para o paciente. O Haras da Brisa recebe, todas as segundas-feiras, um grupo de crianças da APAE de Chapada dos Guimarães e oferece os trabalhos de equoterapia de forma gratuita. Eles tem ajuda da Prefeitura da cidade com o transporte e apoio do Senar e do Sindicato Rural para pagar a fisioterapeuta que acompanha os tratamentos, mas grande parte do trabalho é feito de forma filantrópica pela família.
“Eu já vi crianças da APAE que não andavam e, depois do tratamento, começaram a andar porque o quadril encaixou no lugar certinho”, conta Gabrielle. Para ela, os resultados são nítidos também na autoconfiança do paciente: “A criança vem aqui, beija, abraça o cavalo, passa a mão. É lindo de se ver. E em cima do cavalo todo mundo é igual, não tem diferença”.
No último dia 5 de dezembro, o Haras da Brisa realizou uma cavalgada especial para crianças da Associação de Amigos do Autista de Cuiabá. Cerca de 13 famílias participaram, e um total de 40 pessoas passearam a cavalo pelas trilhas de Chapada. O evento foi feito de forma filantrópica com o objetivo de socializar os autistas e, segundo Gabrielle, o resultado foi surpreendente.
A ideia, agora, é criar um projeto social para que essas crianças passem a frequentar o haras regularmente, assim como as crianças da APAE. À princípio, seriam feitas essas cavalgadas à lazer, pois o processo da equoterapia é um pouco mais complicado: “São 30 minutos no máximo de terapia e precisa de um fisioterapeuta acompanhando, o que já é um gasto a mais”. Além do médico responsável, a família Andrade gasta por mês, apenas com a compra de feno para os animais, mais de cinco mil reais.
Como o custo não é barato, para se manter e atender cada vez mais crianças (seja autistas, da APAE ou crianças carentes em geral), o Haras da Brisa busca ajuda por meio do apadrinhamento de cavalos. Cada pessoa que se disponibiliza a apadrinhar um animal, paga para mantê-lo por mês e, desta forma, garante a equoterapia de seis pacientes no total. Lauristela – a mãe de Manu – é uma das madrinhas. Além de sua filha, ela disponibiliza o cavalo para tratar mais cinco crianças especiais.
Para ela, a certeza de que esses pacientes vão evoluir tanto quanto sua filha já vale a pena: “A Manu começou cavalgando dentro do haras e agora já faz trilhas. Até o aniversário dela ela comemorou embaixo de uma árvore aqui e o primeiro pedaço de bolo ela ofereceu pra égua. Ela faz questão de colocar a calça de montaria, a bota e o capacete, porque ela já veio aqui e viu outras meninas da idade dela, que não tem deficiência, vestidas assim. Ou seja, aqui ela se sente igual aos outros”.
Vendo Manu cavalgar ao longe, junto com a fila indiana que segue para a mata, realmente não se nota diferença. A não ser sua habilidade – que é bem maior do que a dos turistas que se aventuram pelas primeiras vezes."

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