5 de setembro de 2016

A equoterapia trabalha o corpo sem que o paciente perceba


Estudo descobriu que crianças com paralisia cerebral conseguiam aumentar o controle do corpo depois de apenas dez sessões de hipoterapia; habilidades motoras básicas e mais especializadas também melhoraram.
Jack Foster, de três anos, sentou no colo da mãe enquanto ela enrolava cuidadosamente uma toalha em torno de seu pescoço.
"Jack tem paralisia cerebral e pouco tônus muscular. O maior desafio é manter sua cabeça levantada", contou sua mãe, Emily Foster, de Northbrook, em Illinois.
Com ajuda da terapeuta ocupacional de Jack, Emily colocou um capacete de equitação na cabeça do garoto e encaixou o fecho. Então, viu a terapeuta ocupacional e dois voluntários colocarem o menino sobre um pônei avermelhado. Jack parecia encantado enquanto um dos voluntários se postava do seu lado direito cantando suavemente e o outro conduzia o pônei em ritmo lento pela arena.
Jack estava na Horsefeathers Therapeutic Riding em Lake Forest, Illinois, para fazer equoterapia (ou hipoterapia), um tipo de terapia feita a cavalo e conduzida por terapeutas físicos e ocupacionais e fonoaudiólogos para melhorar o tônus muscular, a fala e outras funções do corpo ("hippus" é a palavra grega para cavalo; a Associação Americana de Hipoterapia tem uma lista de terapeutas no site americanhippotherapyassociation.org). A equoterapia é usada para tratar uma grande variedade de problemas, incluindo danos e paralisia cerebrais, curvaturas na espinha, deficiências intelectuais e distúrbios de linguagem e de processamento sensorial.
O movimento natural dos cavalos permite que os terapeutas trabalhem para alcançar os objetivos do tratamento em um cenário que pode parecer divertido, mas que, como mostram as pesquisas, traz benefícios reais. Um estudo recente publicado na Physical & Occupational Therapy in Pediatrics, por exemplo, descobriu que crianças com paralisia cerebral conseguiam aumentar o controle do corpo depois de apenas dez sessões de hipoterapia. Habilidades motoras básicas e mais especializadas também melhoraram.
Um cavalo caminhando em volta de um celeiro dá cerca de 100 passos por minuto, afirma Tim Shurtleff, instrutor do programa de terapia ocupacional da Universidade Washington em Saint Louis. Cada passo empurra a pélvis do cavaleiro para frente, assim, depois de 35 minutos, a pessoa fez mais de 300 repetições do "desafio do tronco", em que essa parte do corpo é levada para frente e para trás. A cada passo que o cavalo dá, o cavaleiro precisa trabalhar sutilmente para se manter ereto.
"Esse é o poder da equoterapia - é uma experiência de movimento intensivo. A pessoa no cavalo é forçada a responder a essa movimentação", explica Shurtleff.
Para cavaleiros como Jack Foster, que vem fazendo hipoterapia há mais de um ano, o movimento da pélvis ajuda a fortalecer o tônus muscular de seu pescoço e tronco, enquanto relaxa músculos de seus quadris e coxas. Normalmente, "ele se curva e se estica, o que deixa seus quadris e suas coxas bem travados. Sentar no cavalo faz com que se alongue", afirma Emily.
Durante uma típica sessão de terapia, Jack monta no cavalo olhando tanto para frente quanto para trás. As sessões podem incluir jogos de bola ou colocar anéis em bastonetes e cones, desenhados para melhorar o controle do tronco e do pescoço e sua habilidade para alcançar objetos.
Pesquisadores agora estão testando a equoterapia como uma intervenção para adultos com esclerose múltipla e outras doenças neurológicas. Deborah Silkwood-Sherer, diretora do programa no departamento de Terapia Física da Universidade Central de Michigan, diz que a hipoterapia também pode aumentar a motivação em crianças com deficiências que já passaram por anos de tratamentos.
"As pessoas não percebem que estão trabalhando duro sobre o cavalo", explica Deborah. A imagem visual e as sensações que um celeiro ou um estábulo oferecem são um estímulo adicional. "As crianças nunca acham que estão fazendo terapia."
Meredith Bazaar, de Ringwood, Nova Jersey, patologista de fala e linguagem, usa a hipoterapia para tratar clientes, incluindo aqueles com apraxia da fala, um distúrbio cerebral que torna difícil articular sons ou palavras.
"O movimento do cavalo é tão repetitivo e coordenado", conta a terapeuta, que permite que ela mexa os lábios, o queixo e as bochechas do paciente com as mãos para ajudá-los a fazer o som desejado. Com cada passo que o cavalo dá, o cliente repete um som, como "ga", que também pode funcionar como comando para o cavalo andar, como "vá".
No Horsefeathers, o fundador e diretor executivo, Nick Coyne, possui dez cavalos e pôneis mansos que usa para hipoterapia e equitação adaptada, que permite que pessoas com deficiências físicas e mentais cavalguem. Ele se refere a alguns de seus animais como "cavalos bomba", o que significa que uma bomba poderia explodir e os animais não reagiriam.
Os cavalos são treinados para parar assim que sentem que o cavaleiro está escorregando e para ignorar os repentinos gritos de encantamento que o cavaleiro pode dar, assim como os movimentos espasmódicos, explica Coyne.
Alex Brock, de 22 anos, de Lake Bluff, em Illinois, tem microcefalia e paralisia cerebral, não verbaliza palavras, tem incontinência e dificuldade para processar a linguagem. Ele já saiu do sistema público de ensino, mas, uma vez por semana, ansiosamente sai de sua cadeira de rodas para trabalhar com Coyne como um cavaleiro adaptado.
Sua mãe, Trina Brock, incialmente não acreditou quando ouviu falar de equitação adaptada na antiga escola de Alex. "A primeira coisa que pensei foi: como ele vai montar em um cavalo?", conta. Mas ela afirma que seu filho agora espera feliz sua visita semanal ao celeiro e que os exercícios ajudaram a fortalecer seu tronco.
São necessárias três pessoas para ajudar Alex a montar, e Trina diz que chorou na primeira vez que viu seu filho em cima de um cavalo.
A hipoterapia não é indicada para todo mundo. Meredith Bazaar explica que alguns clientes têm alergias a cavalos e os medicamentos podem deixá-los muito sonolentos para montar. As pessoas com alterações na coluna, como espinha bífida, também não são bons candidatos, e aqueles com síndrome de Down e outros problemas devem primeiro ser examinados por um médico para determinar se sua coluna é suficientemente estável para suportar os passeios a cavalo, diz ela.

Mas, para crianças como Jack Foster, montar a cavalo pode trazer novas oportunidades. "Foi a primeira terapia que ele fez sem mim", conta sua mãe.

Fonte: Estadão

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